- A culpa foi daquele maldito sonho. Repensando, agora, com mais calma, percebo isso. Foi aquele sonho. Eu bem que deveria ter percebido que nada de bom iria vir daquilo. Eu nunca tenho isso. Minhas noites são sempre regadas de escuras e ociosas horas. Negritude do momento que fecho os olhos, até o acordar. Eu não sonho. Isso não faz parte da minha vida. Foi muita inocência pensar que aquele sonho seria algo bom, só porque havia acordado com um sorriso. Não fora um sonho ruim, muito pelo contrario. Eu e ela, deitadas na cama. Um beijo rápido e singelo. E um susto, por aquela inesperada ação. Era para ter sido um sonho bom, só isso, se eu não a tivesse visto dias depois, e tivéssemos sentado para conversar. Relembrar os dias passados meses atrás, com todas as minhas emoções a flor da pele. Até parecia um prelúdio. Uma visão, que viera me preparar para tudo que sentiria ao vê-la de novo. Então comecei a sentir antes, para não fosse tudo de uma vez só, se não seria insuportável. Mas de tal forma a lembrança daqueles lábios ficaram presos em minha memória, e tudo que desejava era repetir sonho meu. Mas isso não era mais possível, não é? Nunca o é. O tempo passa, e para Mariana, com o dobro da velocidade. Se para mim foram apenas quatro meses desde nossa despedida, já há anos ela não relembrava de nossas lágrimas misturadas de risos e tristezas – coisas de qualquer relacionamento que não está pronto para terminar. Quer dizer, para mim. Ela sempre estivera pronta para terminar. Ou melhor, nunca se quer propusera-se a começar. Quem terminava era eu. Terminava minhas fantasias, de um relacionamento que estava muito mais na minha cabeça do que na realidade. Os beijos eram apenas os beijos. Os abraços, apenas abraços. As brincadeiras, nada mais do que aquilo falado. Não havia em Mariana a ambigüidade que existe em nós, meros mortais. Ela não necessita de laços. Ama, e pronto. Como quem respira. De tal forma vai amando, amando, amando, e partindo. Era ar. Eu não queria que ela amasse, não dessa forma. Queria que ela amasse como eu amo, como quem se afoga. Segurando o amor que ela era em pedaços na minha boca, ate que ele se acabe. Queria que ela me segurasse, abraçasse, falasse palavras de carinho. Mas Mariana não era disso, o amor era tão dela, que o simples fato dela existir já era por si só uma continua prova. Eu queria que fosse só minha. Que falasse apenas o meu nome. Que suspirasse “Heleninha…” quando dormisse. Mas ela era, como o ar, de todos. Não se prendia, por mais que eu segurasse a respiração. Por isso ela desmanchou em bolhas. E foi isso tudo que aquele sonho me fez relembrar, com ele, todas as inseguranças que Mariana me provocava. Inseguranças de quem não sabe amar, de quem ama com egoísmo, quem ama errado, quem ama como nós amamos. (Porque Mariana não é como nós, e nisso está o mistério e todo o exotismo dela). Enquanto ela sorria e me abraçava, me chamava para um café e me contava as novidades, mostrava fotos e viagens e me entregava lembranças de suas andanças (que ela não havia comprado para mim, mas para quem encontrasse pelo caminho, um dos seus vários amantes de beira de estrada, assim como eu). Ela gentil, como eu nunca seria com ela, e eu fantasiando, transformando a gentileza dela numa esperança de reviver uma história que nunca existira. Quando caiu a noite, fomos para sua casa, e de lá só sai na segunda-feira seguinte. Naquele quarto antigo dela, já totalmente diferente da época em que eu a visitava, mas que ainda assim me deixava nostálgica com suas lembranças, tentei retomar os passos de onde havíamos parado. Mas não lembrava que eram passos tortos, e bastou apenas algumas horas para trazer de volta não apenas os beijos ou abraços, mas também minhas angustias. Dos momentos felizes começamos a relembrar as brigas. Ou melhor, reviver. Na cozinha, no banheiro, no quarto, na varanda. A qualquer momento. Logo depois de uma noite fazendo as pazes ou no meio do almoço. Foram três dias revivendo os últimos quatro meses do nosso não-relacionamento condensados em pouco mais de 80 horas. Não, eu não havia mudado. E nem ela. Nunca mudaríamos. Nunca me daria aquilo que eu precisava. Quando acordei na manhã do quarto dia, e não a vi ao meu lado na cama, percebi que havia estragado tudo tentando prende-la novamente. Havia espantado-a para sempre, na esperança de transformar aquele sonho em realidade, fiz com que ele se se torna o maior dos pesadelos. Se pudesse revê-la, ira dizer que não tive a intenção. Não queria ter agido daquela forma, ou dito todas aquelas coisas cruéis naquela noite no banheiro. Você não é um monstro ou doente. Não era sua culpa eu estar despedaçada. Era culpa do sonho, e de todas as minhas inseguranças que vieram com ela. De qualquer forma, se você a ver, diga que eu sinto muito. Peça perdão por mim. E fale que eu deixei a chave em baixo da pedra no jardim, caso ela queria voltar para a antiga casa.